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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

vidas possíveis XV.



Depois de comer e vermos o filme, ouvimos música, falamos e no fim acabamos por adormecer cada um para seu canto.
Quando acordei, olhei em meu redor e não vi ninguém, procurei um bilhete deles mas não encontrei. Levantei-me, fui à casa de banho e desci para tomar o pequeno almoço. Lá estavam eles, o Diogo e a Joana à mesa com a minha família.
R: Porque é que não me chamaram?
- Não te queríamos incomodar filha, mas senta-te e come – disse a minha mãe.
T: Estás melhor pulga?
R: De quê?
T: Da menstruação.
R: Da mens .. ahh sim, já não me dói nada.
D: Nós somos a cura para qualquer doença.
R: A menstruação não é uma doença nabo.
- Renata olha a linguagem – disse o sr. pai certinho .
T: Eu punha-a já de castigo.
R: Já te calavas venenoso.
T: Tss .. sou pior que cobra, cuidado.
O meu irmão tem destas coisas, tanto tenta ser engraçado que acabamos por nos rir só pelo esforço que faz, sem nunca conseguir o seu objectivo.
Lá comecei a comer, fomos falando e reparei que eles tentavam sempre animar-me, o que é bom e sabe que nem uma maravilha. Quando acabei, vim para o quarto e liguei ao Pedro.
R: Olá meu amor.
P: Nata, não estava à espera de uma chamada tua tão cedo.
R: Não? Porquê?
P: Porque pensei que estivesses magoada comigo.
R: Achas, eu percebi que não podias cá ficar, e foste pela tua avó, não foste porque quises-te abandonar-me.
P: Gosto tanto de ti.
R: Eu acho que consigo gostar mais. Como é que está a tua avó?
P: Olha, pelo que tinham dito parecia que ela estava num estado muito grave mas pelos vistos a coisa tem solução e com os tratamentos certos ela vai ficar bem.
R: Então não é grave?
P: É grave, mas não está entre a espada e a parede.
R: Ahh ainda bem amor. Depois dá-lhe um beijinho por mim e força para todos. Estou aqui à tua espera.
P: Eu vou voltar mais cedo do que pensava e vou correr para os teus braços.
R: Vá agora tenho de desligar porque senão não tenho dinheiro para ligar mais vezes.
P: Sim claro. E a partir de agora quem liga sou eu. Ou então dás um toque e eu ligo, não quero que gastes dinheiro.
R: Tu não mandas em mim, quem tem esse poder são os meus paizinhos, não o meu namorado.
P: Gosto tanto de te ouvir falar assim.
R: Assim como?
P: Tratar-me como teu namorado e ver-te feliz ao dizer isso.
R: Aproveita, nem todos tiveram a tua sorte.
P: Nem mais ninguém vai ter. Vá amor, depois falamos. Beijinhos para todos, um enorme para ti. Amo-te muito.
R: Beijinhos para a tua avózinha e as melhoras. Beijo enorme para ti, amo-te mais.


- desculpem a demora.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

vidas possíveis XIV.


Dentro do carro, o Tiago conduzia sem um destino certo. Parou numa rua sem saída e praticamente “sem vida”.
T: Renata, tu não podes ficar assim. O que é que se passou?
Contei-lhe tudo, desde o dia em que me cruzei com o Pedro, até hoje. Ele não achou muita piada ao facto de eu ter beijado um rapaz com a fama que tem mas apoiou-me e nunca me julgou. Ficamos ali a conversar durante horas e por fim o meu telemóvel toca, era o Diogo.
R: Tiago, temos de ir.
T: Onde? Porquê?
R: Está a ficar tarde e a Joana e o Diogo vão lá a casa.
T: Já sabes o que vais dizer aos pais?
R: Vou dizer que me estava a sentir mal, eles sabem que na altura da menstruação eu fico sempre assim.
T: E choras?
R: Às vezes sim.
T: E nunca me disses-te nada?
R: Queres que te diga o quê ? “Tiago veio-me o período e dói-me muito”?
T: Pois, realmente prefiro não saber.
Ele fez-me sorrir. É um bom irmão e preocupa-se, mas tal como eu, tudo o que envolva sangue, ele dispensa.
A caminho de casa pus o colar do Pedro ao pescoço e juntei a chave da cabana às chaves de minha casa, era uma maneira de o sentir comigo e de sentir aquela cabana como minha casa também. Quando finalmente chegamos, o Diogo e a Joana já lá estavam. Entramos e deparámo-nos com todos na sala a conversar. Eu subi para o meu quarto, o Tiago foi ter com eles.
Passados nem dois minutos batem à porta.
R: Entrem.
J: O teu irmão disse que estavas com dores da menstruação.
D: Mas como é óbvio, não nos acreditamos. O que é que ele te fez?
R: Nada.
D: Nada? Renata tu estás a chorar.
J: Amiga, podes falar connosco.
Contei tudo, mais uma vez. O Diogo estava pior que furioso, não parou de andar de um lado para o outro enquanto eu falava mas no fim lá percebeu que ele não me fez nada de mal e acalmou. A Joana simplesmente esteve ali do meu lado, ouviu tudo até ao fim e compreendeu.
J: Já jantas-te?
R: Não, não tenho fome.
D: Íamos-te levar a jantar fora, mas os teus pais convidaram-nos a jantar cá, por isso vamos.
R: Não quero.
J: Renata, vamos.
O Diogo pegou em mim mas depressa me largou.
R: Diogo asério, não quero comer.
J: Eu vou lá abaixo. Diogo anda.
Pensei para mim que nada me iria tirar dali, só quando o Pedro chegasse é que eu voltaria a sair de casa.
Passados um bom bocado aparecem eles com tabuleiros na mão. Foram buscar o jantar para comermos no meu quarto.
R: Já disse que não tenho fome.
D: Mau Renata, já me estás a tirar do sério. Vais comer ou vou ter de te meter a comida pela boca abaixo?
R: Oh Diogo ..
D: Como é que vai ser?
R: Eu como.
A Joana foi buscar o meu pc, ligou-o à televisão e estivemos a ver uma comédia enquanto jantavamos. Mesmo estando sempre a pensar no Pedro, eles sabem como me animar e distrair durante um bocado, afinal de contas não era o fim do mundo, ele foi para o Brasil, mas volta, ele prometeu.

domingo, 7 de agosto de 2011

vidas possíveis XIII.


O telemóvel dele toca, ele atende e afasta-se de mim. Quem seria para eu não poder ouvir a conversa? Seria a ex-namorada dele? Os pais?
Ele volta para a minha beira.
R: Que cara é essa?
P: Promete que não ficas chateada.
R: Eu sabia, era ela não era? Pediu-te para voltarem e tu aceitas-te, não foi?
P: Achas que sim? Depois de te ter pedido em namoro?
R: Então o que é que ela queria?
P: Não era ela.
Uma lágrima escorreu no seu rosto.
R: Amor, o que é que se passa?
P: A minha mãe ligou-me..
R: E o que disse?
P: A minha avó que vive no Brasil está muito mal.
R: Oh amor tem calma, ela vai ficar boa.
Tentei abraçá-lo mas ele não deixou.
P: Vou ter de ir para lá até ela melhorar.
R: Para lá? Para o Brasil?
P: Sim.
R: Não, isso é mentira. Tu não podes ir, não agora.
P: Eu também não te quero deixar aqui, mas não tenho opção. Parto amanhã.
R: Amanhã Pedro? Não podes ir assim. Não me podes abandonar logo agora. Eu confiei em ti, coisa que nunca fiz com nenhum rapaz.
Ele agarrou no meu rosto.
P: Eu não te vou desiludir Nata. Eu não te vou abandonar. Eu vou estar sempre contigo, mas a minha avó precisa de nós agora.
R: Também eu Pedro, por favor não vás.
Foi mais forte que eu, não consegui evitar e comecei a chorar. Eu sabia que ele não tinha culpa, sabia que estava a ser egoísta mas estava tudo a correr tão bem, não podia acabar assim.
P: Isto não vai acabar aqui, eu vou voltar, prometo-te.
R: E as nossas férias?
P: Vão ter de esperar, mas ainda vão acontecer.
Ele abraçou-me com muita força e assim ficamos. Não o queria largar, não o queria deixar ir porque podia não o voltar a ver.
P: Vais ficar com este colar e a chave da cabana e vais-me prometer que aqui vens sempre que te sentires sozinha, está bem?
R: Então vou cá ficar até tu voltares.
P: Não estejas assim, ela vai melhorar rápido e eu volto logo para ti.
R: Vou rezar para que isso aconteça.
P: Vá, eu tenho de ir, anda que eu levo-te a casa amorzinho.
R: Não, eu não posso chegar assim a casa. O meu irmão vem-me buscar.
P: Ui, ele vai-me matar.
R: Eu não vou deixar.
P: Oh que linda, obrigada amor.
R: Não asério, ele se me vê assim é bem capaz de se atirar a ti.
P: Boa maneira de o conhecer.
Abracei-o mais uma vez. Liguei para o meu irmão e fomos para a beira da estrada.
R: Promete que voltas para mim.
P: Prometo amor.
O meu irmão chega, sai do carro e agarrou o Pedro pela camisola.
R: Tiago larga-o, não foi ele.
T: De certeza?
R: Sim, larga-o.
Largou-o e abraçou-se a mim.
T: Vamos embora princesa.
R: Deixa-me despedir dele.
P: Amor, eu vou carregar o telemóvel, quando puder vou à net e prometo que falo todos os dias contigo. Por favor não estejas assim, eu quero-te ver bem, afinal este é o nosso primeiro dia de namoro. Anima-te vá.
R: Eu prometo que vou esperar por ti e nunca vou duvidar da tua palavra, amo-te muito.
Entrei no carro e viemos embora, vê-lo a ficar para trás foi horrível, nunca pensei sentir um aperto tão grande no meu corpo.
T: Renata, para onde vamos?
R: Qualquer lado, menos para casa.
T: Sabes que me tens aqui para tudo?
R: Sei Tiago, obrigada. És o melhor irmão do mundo.
T: E tu és a minha princesa, nunca te vou abandonar.

domingo, 24 de julho de 2011

vidas possíveis XII.


Já não aguentava mais e ter ficado aqueles segundos a olhá-lo foi como se tivesse entrado dentro do corpo dele e tivesse percebido tudo o que se passava na sua cabeça.
P: Olha, acabei de ser beijado pelo amor da minha vida, não é irónico?
R: Não, não é parvo.
P: E podes parar de me insultar? Já percebi que estás caidínha por mim.
R: Sim, é que tu não ..
P: Claro que estou, se eu não gostar de mim, quem gostará?
R: Olha deixa de ser estúpido, tu sabes do que eu estava a falar.
P: Acho que preciso que me expliques melhor. – chegou-se para mim com ar de quem queria um beijo.
R: Chega-te para lá, ter-te dado um beijo não significa que queira dar mais.
P: Ah? Não queres? – ele parecia mesmo assustado.
R: Estou a brincar Pedro.
Beijei-o outra vez e ficámos naquilo durante um tempo, afinal tinhamo-nos apaixonado com uma troca de olhares e desde aí que esperei por este momento.
R: E sabes o que é o melhor de tudo?
P: Eu, claro.
R: Não .. estarmos praticamente de férias.
P: E vamos passar aqui as nossas férias?
R: Nossas?
P: Mau Renata, já chega desta brincadeira, agora é asério.
Levantou-se e andava de um lado para o outro a olhar para o chão, sinceramente não fazia ideia do que ele estava a fazer e cada vez percebia menos do que se estava ali a passar. Vejo-o a meter qualquer coisa ao bolso e a vir na minha direcção.
P: Anda, vamos para outro sítio.
R: Para onde?
P: Aaanda.
Fui praticamente arrastada mas lá tive de ir. Passados uns 2 minutos a andar a pé vi uma espécie de carrinha ou lá o que aquilo era.
R: É para aqui que me trazes?
P: Sim, eu conduzo esta carrinha aqui na mata.
R: Conduzes isto? Tu nem carta de carro tens ..
P: Por isso é que só a conduzo aqui não achas?
R: Pois, realmente. E porque é que me trazes aqui?
P: Queria que a conhecesses.
R: Olá carrinha feia e velha, eu sou a Renata.
P: Não sejas assim, tu também és feia e não é por isso que não gosto de ti.
R: Ahh, obrigadinha.
P: De nada docinho de morango. (ri-se)
R: Oh god, de repente até tive vontade de vomitar.
Logo depois disto vejo-o a correr e saltar para cima da carrinha e a tirar uma rosa do bolso.
P: Renata, queres namorar comigo?
Fiquei a olhar para ele, senti a minha cara a corar e os olhos a encherem-se de água. Nunca ninguém me tinha feito tal pergunta e acho que nunca me tinha sentido assim.
R: Namorar contigo? É claro que quero.
O impulso seguinte foi o de saltar para a carrinha e dar-lhe o melhor beijo da sua vida.
P: E agora? Já podemos passar aqui as nossas férias?

quinta-feira, 30 de junho de 2011

vidas possíveis XI.



Peguei no capacete, subimos para a mota e lá fomos nós outra vez, nada dissemos durante todo o caminho, como já é hábito. Finalmente chegamos, já estava a escurecer.
P: Não dizes nada é? Estás com a consciência pesada por teres falado daquela maneira comigo de manhã? (ri-se)
R: Ah sim claro, se te falei assim foi porque mereces-te.
P: Estúpida.
R: Parvo.
Ele olha para mim com ar de desconfiado, sem saber se eu estava a brincar ou a ser sincera.
R: Vamos ficar aqui a olhar um para o outro?
P: É mau?
O silêncio instala-se por uns segundos.
R: Vamos embora ou não?
P: Ai que impaciente, vamos.
Pusemo-nos a caminho da cabana e por incrível que pareça, íamos a conversar.
R: Olha, sobre a mensagem que te mandei ontem, nem vais acreditar.
P: Ah pois é, conta-me.
Tirei a carteira e mostrei-lhe a tampa do iogurte.
P: Estás a gozar?
R: Encontrei-a no chão da paragem.
P: A de tua casa?
R: Sim.
P: Oh meu deus, essa tampa é do meu iogurte, és o amor da minha vida. (ri-se novamente)
R: Sou, só agora é que descobris-te? (num tom irónico)
P: Bem, eu já sopunha, mas ainda não tinha certezas visto que só me insultas e tratas mal.
R: Até parece, só faço aquilo que tu mereces.
P: Eu mereço tudo do bom e do melhor, por isso é que te conheci. (tosse para, ironicamente, tentar disfarçar)
R: Ahah, que piada, parvo.
P: Cala-te e sobe.
R: É desta que conheço a “mansão”?
P: Só se quiseres.
R: Ah, então nesse caso acho que vou embora.
Ele agarra-me e empurra-me lá para dentro, caímos os dois redondos no chão e desmanchamo-nos a rir.
R: Ahh, que coisa mais amorosa. Tu daqui consegues ver as estrelas. Não tens tecto?
P: Não, e no inverno chove cá dentro. Claro que tenho tecto, mas é de plástico.
R: Ah e tens um tronco aqui no meio. E um baloiço. E uma mesa. E papel de parede. E talheres, pratos e copos. E uma cama? Tu dormes aqui?
P: Isto é uma casa na árvore, querias que tivesse o quê? Postes de electricidade e cimento? E sim, durmo cá de vez em quando.
R: Tanta coisa, isto parece a tua casa.
P: Não parece, é.
R: Estou estupefacta, isto é maravilhoso. E esta porta para que é?
P: É para o rio, cuidado. Assim escuso de descer as escadas, salto logo daí.
Descemos as escadas e acabamos por nos pegar, caímos outra vez e ficamos deitados no jardim.
R: Acho que já tenho onde passar as férias do verão. (sorri)
P: Sempre que quiseres.
R: Estava a brincar, não vou abusar.
P: Tu não abusas, estás à vontade.
De repente fiquei imóvel a olhá-lo nos olhos, como se tivesse ficado presa e não conseguisse mexer-me.
P: Gostas do que vês?
R: Se o que eu estou a ver me levar para o que eu sempre imaginei, então sim, gosto.
P: E o que é que tu sempre imaginas-te?
R: Isto.
Beijei-o.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

vidas possíveis X.


São 7h30 e como é claro, o despertador toca. Faço a minha rotina normal e chego mais uma vez atrasada à escola. Deparo-me com o Pedro sentado ao portão da escola.
P: Bom dia alegria.
R: Pedro? Tu não podes chegar atrasado. Aulas, já!
P: Mas ..
R: Agora!
P: Está bem, até logo.
Secalhar fui um bocado bruta, mas ele não pode ter faltas, por isso prefiro falar com ele mais tarde, assim sei que não sai prejudicado.
Entro na sala e sento-me no meu lugar, ao lado do Diogo.
D: Porque é que já te vens a rir?
R: Porque a vida me corre bem.
D: Isso não tem nada haver com aquele tipo que vio..
R: Ele não fez nada!
D: Pronto, já vi que sim, vamos ter que falar minha menina.
R: Sim paizinho.
A Joana está sentada na mesa à nossa frente e viu e ouviu a conversa que nós tivemos, lançou-me um olhar ameaçador porque, pelos vistos, também não achou muita piada à ideia de eu ter falado com o Pedro.
A aula passou a correr, como todo o resto do dia. O Diogo e a Joana não tocaram no assunto, o que quer dizer que logo à noite os tenho em minha casa para esclarecermos tudo. São 18h30 e viemos embora, como era de esperar, o Pedro estava à minha espera.
D: Renata, tu vais outra vez com ele?
R: Vou, porquê?
J: Achas isso boa ideia?
R: Confiam em mim?
D e J: Sim.
R: Então não se preocupem. Já vos espero à noite em minha casa por isso até logo.
D: Juízo.
R: Sim paizinho.
Para além de ter um irmão protector, tenho também um amigo que parece meu pai. Nada lhes escapa e eu sei que para conseguir o que quero, tenho de ter o consentimento de ambos.
Chego perto do Pedro, ele lança-me um mega sorriso e acaricia-me o braço.
P: Mais bem disposta?
R: Eu só não queria que tivesses falta, não quis ser bruta.
P: Sim, eu percebi. Vamos?
R: Sim, mas eu hoje não posso chegar tarde.
P: Combinado.

terça-feira, 31 de maio de 2011

vidas possíveis IX.


Entrei em casa e quando fechei a porta olhei por uma janela e reparei que ele ainda ali estava. Será que estava à espera que eu entrasse para ver se nada me acontecia? É que se assim foi já subiu mais um ponto na minha consideração.
Mantive-me ali a olhar para a rua, mesmo depois de ele ter ido embora. Estava com a cabeça noutro lugar e as minhas pernas não se queriam mexer. É inacreditável, eu conheci o Pedro hoje de manhã e ele já se encontra em todos os meus pensamentos, eu não posso ficar caídinha assim tão facilmente.
- Oh ursa, queres uma babete? – ouvi do cimo das escadas.
R: Cala-te Tiago, deixa de ser anormal.
T: A Renata está apaixonada, uuuh.
R: E o Tiago tem ursinhos na parede, uuuh.
T: Já te estás a esticar.
Ele é o meu irmão mais velho, é o único que tenho. É demasiado chato, e protector ao mesmo tempo, mas eu também não vivo sem ele.
T: O que é que estás aí a fazer morcona?
R: Tens alguma coisa haver com isso?
T: Fala-me baixo que ainda tens de respeitar os mais velhos.
R: Sim claro, os pais?
T: O pai está a tomar banho, a mãe está no escritório.
R: Ok, xau.
T: Já estavas a demorar muito.
Quando disse isto já estava no fundo das escadas, deu-me um cachaço e correu para a cozinha. Tem a idade que tem mas parece um puto de cinco anos, a minha mãe costuma dizer que o adoptou para não parecer tão mal (na brincadeira claro), já o meu pai adora o filho pateta que tem.
- Renata chega aqui – disse a minha querida mãe.
R: Olá mãe, porque me ligas-te?
- Era para saber se demoravas. Olha, eu estou cheia de trabalho, podes dizer à Alice para começar a fazer o jantar?
R: Claro mãe, eu vou lá, e depois vou tomar banho, até já.
Fui à cozinha fazer o que a minha mãe me pediu, subi as escadas e dirigi-me até ao meu quarto.
- Olá Renata, já não se conhece ninguém? – disse o meu pai.
R: Olá papi, nem te vi, estás bom?
- Estou filha, e tu?
R: Também, muito bem. Vou tomar banho, até já.
- Estamos muito contentes.
R: A vida tem destas coisas.
Ele abraça-me e dá-me o seu beijo na testa que eu tanto gosto. O Tiago chega e abraça-se a nós, ou melhor, esmaga-nos.
R: Tiago baza, não queremos sandes.
T: Lá pra ranhosa, fogo. Vai tomar banho mal cheirosa.
- Tiago, olha os modos como falas com a tua irmã – disse o meu querido pai.
R: Toma lá gordo, é para aprenderes.
Pegamo-nos os dois no corredor dos quartos. Andavamos sempre ás turras, mas eram discussões saudáveis, sempre fomos assim.
- Renata e Tiago chega. Vocês já não têm dez anos. Tiago, vai para o teu quarto. Renata, vai tomar banho. Estão de castigo.
Ficamos os dois a olhar para ele, desmanchamo-nos a rir e foi cada uma para seu lado.
T: Pai, já não temos dez anos.
Tomei o meu banho, troquei de roupa e desci para jantar. Reparei que eles os três falaram durante o jantar inteiro mas eu não prestei atenção a nada do que eles disseram.
Acabei de comer e subi para o meu quarto. Fui à minha mala e tirei o telemóvel, tinha uma chamada e uma mensagem, ambas de número desconhecido. A mensagem dizia: “Hoje de manhã saí de casa e trouxe um iogurte para comer pelo caminho, quando tirei a tampa reparei que lá dizia “abris-te a tampinha do meu coração”, pensei que poderia ser o coração do meu novo amor e depois conheci-te. Acreditas em coincidências? Amanhã espero-te à mesma hora, no mesmo sítio para irmos à cabana. Beijo, Pedro.”
Mal acabei de ler aquilo, larguei o telemóvel e peguei na carteira para confirmar que aquela tampa de iogurte era a mesma que eu tinha guardado. Bem, era tal e qual, será que era uma coincidência ou o destino? Era no mínimo estranho, mas nada de normal tinha acontecido neste dia, por isso já nem me esforcei para tentar perceber.
Eu respondi-lhe à mensagem: “Nem vais acreditar no que aconteceu, só visto mesmo. Amanhã falamos melhor, beijo.”
Pousei o telemóvel na secretária e batem à porta, era o meu irmão. Veio dar-me um beijo na testa que me dá todas as noites e foi para o quarto dele. Ninguém acredita mas a minha família é mesmo assim, somos muito dados ao carinho e os beijos na testa já fazem parte da nossa rotina. Peguei no computador, deitei-me na cama e estive a ver um filme até que adormeci.

- relação de irmãos.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

vidas possíveis VIII.


Corei. Não estava à espera que ele fosse pousar a mão dele em cima da minha. Será que isso quererá dizer alguma coisa?
R: Bem, está na hora de ir embora, a minha mãe já deve estar preocupada.
- Queres cá jantar? – disse a D. Cecília.
R: Muito obrigada, mas não. Já passei o dia todo fora de casa, também tenho de passar tempo com a minha família.
P: Eu levo-te a casa. Ou fazes questão que seja o meu avô?
R: Não, agora está tudo esclarecido por isso sim, podes ser tu a levar-me.
P: Então vamos. Até amanhã avó.
R: Até amanhã D. Cecília e obrigada pela ajuda.
- Ora essa Renata, volta sempre que quiseres. E tu Pedro, conduz com cuidado e não te esqueças do capacete.
P: Está bem avó.
Saímos da sala e dirigimo-nos até à mota. Ela ainda estava a uns dez minutos de distância e nós fomos o caminho todo calados.
R: Aleluia que chegamos, estava a ver que não. Tens capacete para mim?
P: Então tu não vieste para cá comigo e com o capacete na cabeça totó?
R: Ah sim, é verdade, já nem me lembrava. E não me chames totó.
P: Porquê? Sentes-te ofendida?
Eu rio-me.
R: Ofendida, porquê? Dá-me mas é o capacete e vamos embora.
P: Tanta pressa, até parece que estás morta por me ver pelas costas.
R: Não me posso queixar de ter passado uma tarde má, mas estou cansada.
Ele aproxima-se e põe-me o capacete na cabeça.
P: Ah gostas-te da tarde?
R: Oh Pedro, não te estiques.
P: Desculpa Renata.
R: Podemos ir?
P: Sim, podemos.
E lá fomos nós, direitinhos a minha casa. Não sei como é que ele sabia onde eu morava mas também não me interessava, estava cansada e só queria voltar para casa.
P: Estás entregue.
R: Obrigada. Pega lá o capacete.
P: Amanhã queres vir comigo outra vez até à cabana?
R: Outra vez? Queres mesmo que eu conheça aquilo? Tens a certeza?
P: Tenho.
R: Pronto, está bem. Confesso que fiquei curiosa.
P: A que horas vamos?
O meu telemóvel toca, é a minha mãe.
R: A minha mãe está-me a ligar. Eu dou-te o meu número e depois combinamos as horas pode ser?
P: Claro que sim.
Ele deu-me a mão dele para eu apontar o número.
R: Pronto, então até amanhã.
P: Até amanhã totó.